Mais um ótimo texto que achei na internet. Retirado originalmente do site arch daily.

Citando Willam Gibson: “O futuro já chegou – só não está uniformemente distribuído”. 

Dentro da arquitetura (e do design e do planejamento), sempre existem várias realidades simultâneas. Uma razão bastante pragmática é que a arquitetura é uma forma de comunicação vagarosa: pode levar várias décadas desde o momento no qual um conceito emerge em algum lugar até o ponto em que ele se torna conhecimento comum na indústria e então ainda mais tempo antes que ele atinja o público geral.

 Tome o “Movimento Moderno” da arquitetura. Basicamente, suas teorias e linguagem formal foram completamente desenvolvidas de 1919 a 1924. E quando lemos os livros de história, adquirimos uma versão distorcida de que os grandes pioneiros modernistas foram barrados somente pelas perversas ditaduras na União Soviética e Alemanha. Esta é uma visão muito distante da realidade da época.

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Um vez tive em mão uma maravilhosa edição antiga da National Geographic (fevereiro de 1932) na qual a Praça da Prefeitura de Copenhague é descrita como “moderna e modernista” – essa era a percepção do público geral a respeito de modernidade naquele tempo, não as villas de Mies van der Rohe.

Ninguém sequer considerava o Pavilhão de Barcelona, que hoje é visto como um dos ícones do movimento. E o real avanço da arquitetura moderna em relação ao público se deu nos arredores do mundo civilizado como era visto, na Escandinávia, na Holanda, na Checoslováquia e regiões remotas da Espanha e Itália. Não em Paris, Berlim, Moscou, ainda que fossem nessas cidades onde novas ideias nasciam, nem em Nova Iorque ou Londres, que eram os centros da modernidade do século XX em termos de economia e indústria.

E o que temos agora é uma situação na qual, em alguns lugares, a noção de “starchitect” e da arquitetura como um objeto glamoroso ainda está em voga. Enquanto em outros lugares há um interesse em uma arquitetura voltada ao conhecimento. No meio disso, temos alguns grandes escritórios que estão, de certa forma, situados entre essas duas posições e são capazes de ser glamorosos quando necessário, e cerebrais quando o cliente ou outros aspectos da situação demandam.

Entretanto, uma sociedade consumista sempre ansiará pelo novo e, agora, o novo é o que Naoto Fukusawa e Jasper Morrison chamam “Super Normal”. Arquitetura e design dão um passo para trás e cedem espaço às pessoas que os usam.

Acima, usei a expressão “arquitetura voltada ao conhecimento”, e talvez isso pareça estranho, já que por definição a arquitetura depende de combinar uma série de conhecimentos. Conhecimento de tecnologia, conhecimento de economia, conhecimento de estética e de questões sociais. Ainda assim, quando a arquitetura se foca muito no formato exterior do objeto arquitetônico, e menos nos outros aspectos, haverá eventualmente uma sensível perda de valor para o usuário. Questões simples como qualidades materiais – um mal piso ou um aquecimento disfuncional, ou outras mais complexas como espaços de convivência desconfortáveis, espaços públicos que induzem o crime ou edifícios públicos que excedem muito seu orçamento e falham em cumprir seu propósito.

Isso não necessariamente faz dela uma má arquitetura. Isso apenas significa que algumas coisas são construídas com outros objetivos que utilidade e sustentabilidade. E esses objetivos podem não ser conhecidos ou convir ao usuário.

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Após 1997, o “Efeito Bilbao” foi um jargão popular tanto entre políticos como entre incorporadores e arquitetos. A ideia é de que alocando um enorme e dramático objeto na baía de Bilbao, Frank Gehry e a Fundação Guggenheim tornaram a cidade atrativa para a chamada indústria do conhecimento, bem como para o turismo. A premissa básica é errada – Bilbao recebeu o museu porque tinha já iniciado uma impressionante estratégia de renovação urbana, que estava funcionando – mas por todo o mundo, cidades e mesmo pequenas comunidades focaram em uma arquitetura chamativa como elemento que transformasse a cidade em uma marca, frequentemente contrária às necessidades e vontade da sua população. E a comunidade da arquitetura se conformou a isso. O formalismo se tornou o centro do trabalho de criação, com fantásticas habilidades de apresentação para acompanhá-lo. Escritórios como os de Frank Gehry, Zaha Hadid e Herzog & de Meuron também desenvolveram um alto grau de entendimento das possibilidades do design e da construção digital, mas em muitos casos esquecem-se do processo da construção real deixado a cargo de engenheiros e construtores, com resultados entristecedores. O que é ainda pior é que não há interesse na experiência do usuário, com exceção do choque inicial frente ao “novo”.

Após a crise econômica, tudo isso mudou. A ideia de que uma cidade deveria se sustentar somente com criatividade, sem produção e com infra-estrutura limitada, morreu subitamente. Não se trata somente da crise, no entanto. Os planejadores da Olimpíada de Pequim levaram a negligência à população a novos níveis e, na minha experiência, mesmo as pessoas que se admiravam com a arquitetura expressiva demonstravam um sentimento de incômodo. De todo modo, havia um entendimento crescente entre os políticos de que uma arquitetura chamativa (ou várias) não consegue levar consigo toda uma cidade – deve haver, juntamente, um esforço quanto ao planejamento e, muitas vezes, esse planejamento pode, por si só, resolver a questão. A ascensão de Gehl Architects é um claro indicador disto. Seu trabalho para a cidade de Nova Iorque mudou a imagem da cidade profundamente, mesmo com sua profusão de arquiteturas eloquentes novas e velhas.

Por falar na cidade de Nova Iorque, o parque High Line é um bom exemplo do ideal corrente de arquitetura. Em termos arquitetônicos, é quase invisível. Onde está o desenho arquitetônico? Os trilhos já estavam lá, e o ajardinamento toma partido do que é espontâneo. Ainda assim, há um sortimento de decisões de design sutis do começo ao fim, proporcionando acesso e sustentabilidade. É uma arquitetura para conhecedores, mas, paradoxalmente, também para um público mais amplo que se possa imaginar. Os arquitetos, Diller Scofidio + Renfro são integrantes da elite vanguardista a décadas, e apenas recentemente se tornaram conhecidos amplamente, mesmo no campo da arquitetura. Mas seu trabalho é consistente e interessante ao público geral, bem como à “elite” conhecedora da arquitetura.

A autora do texto, Merete Ahnfeldt-Mollerup é professora da Academia Real de Belas Artes da Dinamarca.